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Opinião

Liberalismo teológico, pecadinho e pecadão

Que todos nós sejamos maduros para reconhecer nossos pecados, sem relativizá-los nem para mais e nem para menos

Leandro Bueno

Publicado

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O que me motivou a escrever esse artigo é uma profunda inquietação interior de como a ideia de pecado tem sido um tanto deturpada no meio de nossas igrejas, em visões diametralmente opostas e sem qualquer base bíblica. Diria até, com falta do mínimo de bom-senso, como passarei a expor.

Como é sabido, o pecado é colocado na Bíblia como uma transgressão à lei de Deus (I João 3:4) e rebelião contra o Criador (Deuteronômio 9:7; Josué 1:18), tendo sua gênese na queda no Éden, como nos explicita Romanos 6:23, ao dizer que através de Adão, o pecado entrou no mundo e, assim, a morte veio a todos os homens, porque o “salário do pecado é a morte”.

Diante disso, tenho observado igrejas que não gostam nem de serem chamadas de “igrejas” (é como se chamar assim fosse algo “démodé”). Nestes locais, como regra, o liberalismo teológico fez escola, tornando a ideia de pecado em pó, algo sem qualquer relevância maior. E o que quero dizer com liberalismo teológico?

O doutor Augustus Nicodemus, em uma entrevista à Rádio Defesa da Fé, do ICP (Instituto Cristão de Pesquisas), o definiu como um fruto do Iluminismo, movimento surgido no início do século XVIII, que tinha seu âmago na revolta contra o poder da religião institucionalizada e contra a religião em geral.

Assim, a partir de uma visão como esta, o pecado passa a ser visto como uma mera forma de manipulação social, de controle social, perdendo o seu aspecto espiritual bíblico.

Com efeito, nestas igrejas que citei acima, raramente se fala em pecado e da necessidade de santificação. Algumas parecem que adotam tal linha como forma de chamarem mais gente para seus bancos com um “evangelho mais adocicado” e moldado a agenda do século XXI, “mais light”, “menos julgador”, “mais inclusivo”. Em alguns locais que já tive a oportunidade de comparecer, parecia que eu estava em uma mera palestra de auto-ajuda com toques psicanalíticos.

Se questionados os líderes destas igrejas possivelmente dirão que estamos na época da Graça, que veio com Jesus, e que lembrar o pecado, é lembrar do período da Lei mosaica, que restou superado.

Às vezes, me pergunto quando vejo situações como estas, se estamos falando de “graça” ou de “graxa”, de se “lambuzar” no pecado, como os porcos que gostam de chafurdar.

Como corolário imediato de se desprezar o pecado, chega-se a questionar a própria realidade do inferno, tema também nunca tratado nestas igrejas a que me refiro. Recentemente, li o livro LOVE WINS, que foi publicado aqui no Brasil pela Editora Sextante com o nome “O AMOR VENCE”, do conhecido pastor fundador da Mars Hill Bible Church, Rob Bell.

Neste livro, apesar de bem escrito, Rob Bell incorre em uma heresia, ao dizer que duvida ou, no mínimo, questiona a existência do inferno, pelo menos como um lugar de eterno sofrimento. Cita que o termo neotestamentário para inferno é GEENA, que é um vale em torno da cidade antiga de Jerusalém e que veio a tornar-se um depósito onde o lixo era incinerado e onde eram praticados sacrifícios humanos anteriormente. Assim, segundo sua visão, Jesus teria invocado tal termo apenas como forma de metaforicamente falar do lixo humano, representado pelo pecado.

Diante deste quadro de liberalismo teológico, tenho visto com profunda tristeza a multiplicação de irmãos, que se mostram indiferentes e, desculpe o termo forte, “cínicos”, com a questão do pecado, muitas vezes praticando atos deliberadamente, apenas como forma de afrontar ostensivamente as convenções e conveniências morais e sociais e não raramente se colocando, mesmo assim, como “cristãos superiores” àqueles de igrejas geralmente mais simples.

Não é por outra razão que vemos uma coisa horrível em nossos dias, principalmente nas onipresentes redes sociais: irmãos ridicularizando outros irmãos, por suas crenças, entendidas como de “gente atrasada” e “sem consciência”. Há líderes hoje que infelizmente gastam mais tempo falando mal dos outros, do que pregando Jesus, às vezes, chegando a situações deprimentes.

Não que eu seja contra a crítica e o aperfeiçoamento no meio cristão. Longe disso, mas creio que quando a coisa toma uma dimensão onde só se vê escárnio, deboche e empáfia, eu me questiono: Onde está Jesus nisso? E infelizmente, muitos dos seguidores destes líderes passam a adotar o mesmo procedimento de zombaria, de se acharem as “cerejas do bolo” no meio cristão.

Geralmente, são apenas pessoas muito machucadas e ressentidas com o que já passaram em igrejas anteriores onde o equilíbrio dos líderes era mínimo, quando não foram objeto de exploração e decepções.

Por outro lado, girando 180o, vemos exatamente o contrário, ou seja, igrejas onde se prega uma visão do pecado extremamente rasa. Parece que o pecado se resume a você não cometer determinadas condutas sociais, do tipo: não beber, não fumar, não adulterar, não ouvir “música do mundo” , não ir a determinados locais, etc.

Ou seja, se você respeitar esse “script pré-moldado”, você já está um crente nota 10. E o pior, é quando vemos líderes pregando que com esse script, os fiéis vão começar a receber bênçãos e prosperidades, porque Deus TEM que fazer assim. Ouvir pregações assim é menosprezar por completo a soberania de Deus.

Começa-se assim um “evangelho” infantilizado, que eu chamo de EVANGELHO DO “EU MEREÇO”. Ou seja: eu mereço isso, porque faço aquilo, mereço aquilo, porque fiz isso, e aí vai, em um eterno ciclo vicioso. Ou seja, a fé torna-se algo um tanto adoecido em uma relação de troca perversa, até porque é um tipo de relação que não se sustenta.

Isto porque, nenhum homem irá nunca cumprir e também não é isso que a Bíblia nos ensina acerca do que Deus espera de nós.

Por fim, também é triste ver que nestas últimas igrejas que estou citando, muitas vezes, parece existir uma hierarquia de pecados: os PECADÕES E PECADINHOS. Geralmente, os “pecadões” seriam aqueles de índole sexual, do tipo adultério, sexo antes do casamento e aí vai. Os “pecadinhos” seriam quase todo o resto.

Assim, se aquele “ungido de Deus” é corrupto, ganancioso e explorador, sem mansidão e amor com às próprias ovelhas, isso tudo é algo sem grande importância. Quando é pego cometendo barbaridades, muitas vezes os seus fiéis em vez de reconhecer o ocorrido, passam a dizer que aquilo foi armação de Satanás para derrubar o “ungido”, que foi perseguição da mídia, etc.

Recentemente, vi um vídeo no YouTube de um pastor que estava devendo uma vultosa quantia de impostos para a Receita Federal e colocava como se aquilo fosse perseguição do diabo. Se for assim, o diabo todo mês dá uma tungada na minha folha de pagamento lá no meu trabalho.

Encerro aqui, desejando que todos nós sejamos maduros para reconhecer nossos pecados, sem relativizá-los nem para mais e nem para menos, e que encontremos o equilíbrio em Jesus e na sua benfazeja graça.

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