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Opinião

Autodefesa não é vingança!

Você pode ser desarmamentista e ser um assassino, para Jesus. Como você pode ser armamentista e ser um pacificador.

Maycson Rodrigues

Publicado

em

Homem treinando tiros com uma Glock (LOGAN WEAVER / Unsplash)

O discurso do presidente da República em reunião privada que foi disponibilizada ao público pelo STF trouxe uma fala contundente de Bolsonaro em favor, dentre outras coisas, do armamento civil.

O pastor Antônio Carlos Costa, da Igreja Presbiteriana da Barra da Tijuca (RJ), disse em sua conta no Instagram o seguinte:

“Presidente da República quer um Brasil armado. Afirmo que isso é anti espírito do evangelho.”

A pergunta que eu faço é: será?

Sejamos honestos. Você, como cristão, não aprova a linguagem torpe repetida do político apresentada no vídeo. Creio que, também, não é favorável que ele se diga cristão e se comporte desta maneira. Então, a conclusão lógica inicial que devemos fazer é que Bolsonaro está longe demais de ser um cristão verdadeiro.

Contudo, se alguém o elegeu pelo fato de ele ter dito que era cristão, o fez por pura ignorância ou falta de critérios mais profundos na escolha de um candidato à presidência da República. Você não deve votar em alguém porque é ou não cristão; mas pelas ideias e pelos ideais que defende.

Não são todos os que votaram em Bolsonaro porque ele disse que era cristão. Muitos votaram em Bolsonaro porque ele prometeu ser pró-vida, favorável ao armamento civil e contra a corrupção. Os escândalos envolvendo seus filhos estão debaixo do crivo vigilante de muitos brasileiros, e é de se folgar aquele que consegue manter certo distanciamento político que o permita ser voz profética quando algo está errado, e apoiador consciente daquilo que está certo.

Muitos tentam tornar o debate político numa arena de adjetivações, o que somente empobrece a discussão e reflexão. Afirmar por exemplo que um cristão não pode ser a favor do armamento civil é uma das formas de se tolher o pensamento dissonante.

Muitos arrogam que Jesus era contra o armamento civil, porque sua mensagem era pacifista. A pergunta que eu faço novamente é: será?

Jesus certamente era contrário à vingança pessoal, o revide e a violência arbitrária – só que tudo isso está distante da possibilidade de alguém afirmar que ele era contra a existência da espada nas mãos dos soldados romanos ou mesmo da punição legalista de um criminoso.

Ele mesmo defendeu o governo civil quando não se opôs à cobrança de impostos:

Disse-lhes então: Dai, pois, a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus. (Lucas 20.25)

Podemos ainda dizer que não fez um discurso contrário à prisão e condenação dos malfeitores que com ele estiveram no Calvário. E que ainda não negou a autoridade constituída de Pilatos:

Disse-lhe, pois, Pilatos: Não me falas a mim? Não sabes tu que tenho poder para te crucificar e tenho poder para te soltar? Respondeu Jesus: Nenhum poder terias contra mim, se de cima não te fosse dado; mas aquele que me entregou a ti maior pecado tem. (João 19.10,11)

Jesus ensinou sobre a pacificação, que é bastante diferente do pacifismo. Pacificação é a relação pessoal do discípulo com responsabilidade de promover a paz em todas as relações e não incitar os outros à ira, ao ódio ou mesmo à vingança pessoal.

Pacifismo é a ideia utópica de um mundo sem violência que nega as doutrinas da Depravação Total do Homem, do Pecado Original e até mesmo do Evangelho, pois até a morte violenta do Senhor Jesus pertencia ao desígnio soberano de Deus em trazer a verdadeira paz que o homem pode receber na vida, que é a paz com Deus (Romanos 5.1).

Resumindo, o Estado é “ministro de Deus para teu bem. Mas se fizeres o mal, teme, pois não traz debalde a espada; porque é ministro de Deus, e vingador para castigar o que faz o mal” (Romanos 13.4).

O cidadão que deseja proteger a sua casa ou a sua vida daqueles que são assassinos cruéis tem o endosso da Escritura para isso, quer o pastor ou o cristão progressista concorde ou não. Deus permitiu o mal no mundo para que Seus decretos eternos fossem cumpridos, e cabe a cada um discernir que o mal não está no comportamento, mas no coração.

Alguns não encostarão a mão em ninguém e serão considerados assassinos por Jesus, conforme seu ensino sobre o assunto no Sermão do Monte (Mateus 5.21,22), enquanto outros que podem defender suas casas com uma arma não encontrarão a reprovação divina; pois, mesmo um policial cristão que entra em conflito com um bandido e o fere de modo mortal não encontra punição nem pelo Estado, e nem por Deus.

A Bíblia não é contra a legítima defesa do indivíduo (Êxodo 22.2-3), nem contra uso moderado da força por parte do Estado para coibir o avanço do mal na sociedade (Romanos 13.1-5).

E não me diga que citei o Antigo Testamento para defender a autodefesa, a não ser que você não creia na doutrina da Unidade da Escritura e na Imutabilidade de Deus. “Jesus Cristo é o mesmo ontem, hoje e eternamente” (Hebreus 13.8).

Quem não quer ter uma arma, que assim o faça. Mas Bolsonaro não erra quando defende uma população armada para que possa se defender de ditadores enrustidos que podem assumir o poder e o controle da nação, como alguns do STF ou mesmo outros políticos essencialmente desarmamentistas, mas que possuem uma simpatia enorme com regimes ditatoriais como Cuba e Venezuela.

Por fim, encerramos o artigo afirmando que o pastor Antônio Carlos erra em sua visão enviesada do evangelho, que confunde legítima defesa com vingança e ainda acaba por misturar questões bastante distintas para Jesus, no que tange à relação do ser humano com o outro e a relação do ser humano com a violência injustificada do outro.

Você pode ser desarmamentista e ser um assassino, para Jesus. Como você pode ser armamentista e ser um pacificador. A questão dos valores cristãos é que não podem ser mensurados apenas em discursos bonitos, e sim nas ações que se dão no drama da vida.

Casado com Ana Talita, seminarista e colunista no site Gospel Prime. É pregador do evangelho, palestrante para família e casais, compositor, escritor, músico, serve no ministério dos adolescentes da Betânia Igreja Batista (Sulacap - RJ), na juventude da PIB de Vilar Carioca e no ministério paraeclesiástico chamado Entre Jovens. Em 2016, publicou um livro intitulado “Aos maridos: princípios do casamento para quem deseja ouvir”.

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