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Opinião

A maligna cultura do cancelamento

A boa-nova é que Deus não age assim conosco.

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Essa semana foi escolhido para ministro da Educação, o pastor presbiteriano Milton Ribeiro. Antes mesmo que ele tome posse, começaram a pipocar nas redes sociais, vídeos antigos onde a oposição pinçou frases soltas e fora do contexto dele, que foram direcionadas para um grupo específico, e começaram a atacá-lo fortemente, querendo queimá-lo antes mesmo da posse.

Outro caso que me chamou a atenção foi o desligamento do jornalista Leandro Narloch, da CNN, que fez um comentário sobre a polêmica da doação de sangue por parte de homossexuais. Ao levantar uma pesquisa de 2018 que teria concluído que homossexuais masculinos teriam uma suposta maior propensão a contrair HIV, tal comentário gerou grande revolta, sendo ele taxado de homofóbico, isso mesmo sem qualquer debate acerca da pesquisa mencionada, para mostrar seus eventuais erros.

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Ou seja, entre se debater um tema qualquer, o mais fácil é demitir, bloquear de pronto. Banir quem levanta algo que destoa da narrativa do atual sistema. E aqui não estou dizendo que o jornalista está certo, ou que não errou, o que questiono é a falta do diálogo e do contraditório.

Esses exemplos é o que chamamos de CULTURA DO CANCELAMENTO, em inglês, callout culture ou cancel culture. Inclusive, em 2019, foi escolhido o novo termo do ano pelo dicionário MacQuarie.

Poderíamos dizer que cultura do cancelamento é um movimento que tem força principalmente nas redes sociais e envolve uma iniciativa de conscientização e interrupção do apoio a um artista, político, empresa, produto ou personalidade pública devido à demonstração de algum tipo de postura considerada inaceitável. Em outras palavras, errou, está fora.

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Quem não se lembra, por exemplo, do movimento que ocorreu em Hollywood, chamado ME TOO? Neste movimento encampado por várias artistas femininas, vários diretores e atores foram acusados de assédio sexual, abuso e até estupro, sendo que muitos foram linchados e banidos da indústria cinematográfica, sem nem ter passado pelo crivo de um julgamento imparcial, tanto na mídia, como principalmente, na justiça, pois crime é crime e deve ser punido.

A meu ver, esse tipo de cultura é extremamente anticristã, já que o Evangelho tem na possibilidade de REDENÇÃO, um dos seus pontos principais. O ser humano pode nascer de novo, se arrepender de seus pecados e erros, e desfrutar da graça de Deus. Vários são os personagens bíblicos que seriam enterrados de imediato se essa cultura de cancelamento fosse aplicada.

Por exemplo, Zaqueu que era o responsável pela coleta de impostos em Jericó (Lc. 19:1-10) nunca poderia se redimir dos seus erros do passado. Seria sempre banido socialmente até sua morte por ajudar na atividade arrecadatória do Império Romano que ocupava a Palestina na época. Davi nunca poderia ser considerado o homem segundo o coração de Deus, depois de ter adulterado com a mulher de Urias, o qual teve sua morte também facilitada por determinação de Davi.

A boa-nova é que Deus não age assim conosco. E nos dá a oportunidade de sempre estarmos buscando sua face, desde que nos mostremos  arrependidos de nossos pecados com sinceridade de coração.

Porém, na nossa atual sociedade, que é extremamente individualista e egocêntrica, muitos preferem viver apenas nos seus grupinhos sociais, que pensam sempre do mesmo jeito, como se fosse uma receita do bolo. Quem é diferente ou ousa questionar alguns pontos, é muitas vezes excluído e esquecido, pois “dá muito trabalho” ouvir o outro que é diferente de nós. Não há tempo para isso, na cabeça de muitos. Melhor vivermos na nossa bolha existencial pensam muitos.

Não por outra razão, recentemente 150 intelectuais lançaram um manifesto contra essa cultura do cancelamento que denota uma clara intolerância, muitas vezes, vinda de gente que se acha “extremamente tolerante”. É um tipo de cultura que acaba empobrecendo o debate público, dificultando a convivência social, ainda mais em épocas de polaridades, e, como visto, se mostra totalmente contrária aos preceitos do Evangelho. Que tenhamos essa mesma consciência dos seus malefícios no nosso dia a dia. Que assim seja.

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Procurador, professor e escritor, batista e guitarrista amador. Nascido em Brasília. Casado com Andrea Tierno, 2 filhos.